Capa em estilo terminal escuro: as palavras capturar e usar separadas por barra, com usar em laranja e a etiqueta todo dia; no rodapé, cinco usos reais, o kit nos níveis 01 a 03 e o plano de tela, semântica e perfis em violeta
Capa em estilo terminal escuro: as palavras capturar e usar separadas por barra, com usar em laranja e a etiqueta todo dia; no rodapé, cinco usos reais, o kit nos níveis 01 a 03 e o plano de tela, semântica e perfis em violeta

Para que serve uma wiki mantida por LLM no dia a dia

Insight, ideia, projeto, pesquisa e reunião: como uso minha wiki mantida por LLM no dia a dia, o kit Anvilore para testar e o que ainda é só plano.

Iago Frota
produtividadeia

Em 2 de outubro, no meio de uma sessão de brainstorm sobre o futuro do Anvilore, anotei uma ideia que eu estava devendo havia tempo: escrever sobre o uso diário da wiki.

Nos dois artigos anteriores eu falei do método e dos números. Faltou a pergunta mais simples de todas…

Para que eu uso isso numa terça-feira qualquer?

Este artigo responde com cinco usos reais, cada um com um exemplo tirado da minha própria wiki. No fim, mostro como experimentar o kit público e o que eu ainda quero construir. E separo bem o que existe do que é só plano.

O padrão em quatro linhas

Se você caiu aqui de paraquedas, o resumo é este:

  1. Você guarda a fonte original em raw/, e ela nunca mais é editada.
  2. O agente lê a fonte e escreve páginas em wiki/: uma para a fonte, uma para cada conceito e entidade.
  3. Cada página aponta para as outras e para a fonte de onde veio.
  4. Contradição e lacuna viram marcação na página. Quem decide sou eu.

A história completa, com a ideia do Karpathy e o método do Tiago Forte, está em Capturar notas é fácil. Destilar é a parte que dói. Não vou repetir aqui.

Onde a wiki está hoje

Medi de novo ontem, 2 de outubro. Páginas, revisões e fontes saem do mesmo script do artigo dos números.

A wiki rastreia 1.238 páginas. Descontando índices, overviews e logs, sobram 1.100 páginas de conteúdo. Eram 916 em 18 de agosto.

Entre todas elas circulam 17.491 wikilinks. 285 páginas ligam três fontes ou mais, e 139 ligam cinco ou mais.

904 páginas de conteúdo foram revisadas mais de uma vez. Dá 82%.

Esse último número pede cuidado. Revisão não é enriquecimento: um commit que só reformata conta igual. O que mostra conhecimento acumulando é o número de fontes por página, não o de revisões.

A dívida também continua à mostra: 597 lacunas, 233 contradições e 31 trechos desatualizados, todos marcados nas próprias páginas. Visíveis, em vez de escondidos.

Agora, os usos.

Insight de uma linha

Em 12 de julho, anotei no Notion uma frase solta: “A ideia que vence nem sempre é a melhor, é a que tem apoio do C-Level.”

Era só isso. Um título, nenhum parágrafo.

Na ingestão, o agente criou uma página para a nota e ligou a frase a um conceito sobre poder organizacional e mérito. Ela deixou de ser um arquivo solto e passou a morar perto de outras notas do mesmo assunto.

Quatro dias depois, a frase virou um post aqui no blog. Em agosto, a página da wiki ganhou o link para ele e marcou como resolvida a pergunta “o que fazer com isso?”.

Mas uma pergunta continua aberta lá, e eu gosto que continue: qual situação concreta disparou o insight? O post generaliza a partir de exemplos públicos. O episódio real não está escrito em lugar nenhum, e o agente não inventou um para tapar o buraco.

Ideia que volta

No mesmo dia, anotei uma ideia maior: juntar todos os meus assuntos numa wiki só.

Junto vieram as dúvidas. Um vault único aguenta assuntos de profundidades tão diferentes? Onde mora o valor real do Obsidian? A assinatura do NotebookLM vale o que custa?

A nota não tentou responder nada disso. Ela registrou um critério: criar uma página para cada ferramenta quando ela reaparecesse.

O Obsidian reapareceu em quatro fontes e três conceitos. A página dele nasceu em 21 de agosto, montada só com o que a wiki já sabia.

As dúvidas sobre as ferramentas continuam abertas. Mudaram de endereço, não de status.

Já a dúvida do vault único ganhou uma resposta parcial em 2 de outubro. Volto nela lá embaixo, quando falar de perfis.

Projeto pessoal

Aquele brainstorm de 2 de outubro também virou uma página da wiki. E o jeito como ela foi escrita é o que me faz confiar nela.

A página separa três coisas:

  1. O que eu decidi, cada item dito por mim na sessão.
  2. O que o agente propôs e eu não confirmei, num parágrafo à parte, com essa ressalva escrita.
  3. O que ficou em aberto, em seis lacunas marcadas.

Uma delas é o backup para quem não usa git. A pergunta apareceu duas vezes na sessão e ficou sem resposta. A lacuna registra isso e diz o que está em jogo: se o instalador vai precisar de conta e de rede.

A página também avisa, logo no começo, que não é spec nem plano. Eu disse que voltaria depois para fazer o projeto de verdade, e ela guardou isso também.

Quando eu voltar, não vou refazer a conversa. Vou abrir a página.

Pesquisa de inspiração

Em 13 de setembro, ingeri o README do IPED. É uma ferramenta forense open source em Java, desenvolvida por peritos da Polícia Federal desde 2012.

Ela me interessou porque indexa material muito heterogêneo — disco, mensagens, imagem, áudio — e busca por semelhança.

O README dizia o que a ferramenta fazia, mas não como. Qual motor de índice? Como funciona a busca por documento parecido? A wiki registrou as duas perguntas como abertas, sem chutar.

No dia seguinte, li o código, e a página ganhou as respostas:

  1. O índice é o Apache Lucene.
  2. Documento parecido é busca por termos, sem embedding.
  3. Imagem parecida usa um descritor próprio, com 1.044 características.
  4. Embedding de verdade, só para rosto.

Três buscas por semelhança, três mecanismos diferentes. Só um deles usa vetor.

E ficou uma pergunta nova para o meu próprio índice de busca: filtrar barato primeiro e calcular caro só sobre os candidatos, como o IPED faz com imagem. Está registrada como pergunta. Nenhuma decisão tomada.

Pesquisa também serve para o que não é código. No mesmo 2 de outubro, quis entender por que alguém paga por open source se já tem o código. Um subagente pesquisou na web e devolveu um relatório.

A página que a wiki escreveu a partir dele preserva o grau de certeza de cada afirmação: comprovado, provável ou inferência.

Que mais de 90% das empresas usam o PostHog de graça está comprovado, na documentação de preços deles. Já uma razão de uns 2,8% de pagantes calculada para o Supabase aparece como inferência frágil do pesquisador. A página não deixa ela virar fato.

E tem uma seção inteira só com o que não foi encontrado. Uma das linhas: nenhuma taxa de conversão do plano grátis para o pago, consolidada e confiável, de qualquer projeto. Saber onde a pesquisa parou me ajuda mais do que mais um número.

Reunião e regra de negócio

Este é o uso que mais pesa no meu trabalho. E é o que eu menos posso detalhar, então o exemplo vai anonimizado.

Numa reunião de agosto, o time discutiu por que um processamento travava registros com cidade válida. A base interna de municípios não acompanhava as atualizações da base oficial. A cidade existia. O sistema é que não sabia.

A decisão foi centralizar num lugar só a tradução de nome de cidade para código oficial, usando a lista pública. Ali também seriam tratadas as variações de escrita: acento, abreviação, parêntese, distrito confundido com sede de município.

A wiki tirou dessa reunião uma página da fonte e uma página de conceito com a regra. A regra ficou escrita com data, com o motivo e com as perguntas que ninguém respondeu: a resolução roda na hora ou em lote? Quem abre o card?

Tem um detalhe que eu acho o mais honesto da página. Ela avisa que a atribuição de cada fala segue os nomes usados na conversa, não uma identificação formal de quem falou.

A wiki registra o quanto ela mesma pode estar errada sobre quem disse o quê.

Quando o assunto volta, a pergunta “o que ficou decidido?” tem resposta com data. E as perguntas em aberto vêm junto.

O que está no kit

Os cinco usos acima funcionam com três peças: um raw/ que não muda, uma skill que ingere e uma que consulta. Essas peças estão no Anvilore, o kit público que eu montei a partir da minha wiki.

O kit é organizado em níveis. Cada um só existe porque o anterior doeu:

  1. Princípio — raw/, wiki/ e o contrato do agente.
  2. Disciplina — o SCHEMA.md e as skills de ingerir e de consultar.
  3. Governança — a skill de lint, o hook que recusa escrita em raw/ e os testes.

O kit entrega esses três. O nível 04 — índice de busca dedicado, backup e automação — ficou de fora de propósito.

E aqui eu preciso desfazer uma confusão que eu mesmo criei. Na minha wiki, “Anvilore” também é o nome de um servidor MCP de busca federada. Ele busca na wiki, nas transcrições e na memória dos agentes, cada uma com índice próprio e sem misturar os rankings.

Esse servidor é nível 04. Não está no kit.

Enquanto escrevo, existem dois Anvilore. A decisão do brainstorm é fazer a minha wiki rodar sobre o kit público, como uma instância dele. Ainda não aconteceu.

Tem uma segunda diferença, e ela atravessa os exemplos acima. Parte do que mostrei é convenção da minha wiki, não do kit: os callouts [!resolved] e [!outdated], os rótulos comprovado, provável e inferência, a seção do que não foi encontrado, a separação entre decidi, propus e em aberto, e o aviso sobre quem disse o quê.

O kit traz o começo disso. O SCHEMA.md define dois callouts, [!gap] e [!contradiction], e as páginas de fonte e de conceito saem da ingestão com uma seção de “Perguntas em aberto”.

O resto você pode acrescentar ao seu SCHEMA.md quando sentir falta. Ajuste as skills junto, porque hoje elas só conhecem os dois callouts.

Como experimentar

O kit roda em Linux. Windows e macOS não têm suporte hoje.

Terminal window
git clone https://github.com/iagofrota/anvilore.git
cd anvilore
bash instalar.sh --simular
bash instalar.sh --alvo claude

O --simular só relata o que seria feito, sem escrever arquivo nenhum. O --alvo aceita claude, codex, gemini e copilot.

Depois, peça ao agente para ingerir raw/exemplo/llm-wiki.md, o próprio texto que originou o padrão. Faça uma pergunta sobre ele. Para fechar, rode bash scripts/validar-wiki.sh. O esperado é VALIDACAO: PASS.

Minha sugestão: na sequência, troque o exemplo por uma fonte sua. Um insight de uma linha já serve.

Roadmap: o que ainda é intenção

Tudo nesta seção é intenção. Saiu do brainstorm de 2 de outubro, que a própria wiki registrou como “não é spec nem plano”. Nada daqui existe no kit.

  1. Uma tela local. Quero um binário que sirva uma interface no navegador, com onboarding, uma busca simples como um Ctrl+F e um grafo de conexões entre notas. A pesquisa feita junto indicou que o grafo global vira um novelo acima de algumas centenas de notas. Com mais de mil, o modo local teria que ser o padrão.
  2. Distribuição sem fricção. O plano é um binário único em Rust, para Linux e Windows, publicado nas releases do GitHub. O recorte da primeira versão ainda está em aberto.
  3. Busca semântica opcional. A ideia é uma feature flag num arquivo de configuração: busca léxica ligada por padrão, semântica desligada. Nem todo computador tem GPU, e nem toda pessoa quer isso. O motor ainda não está definido, e nada foi medido num notebook comum.
  4. Estatísticas que servem para algo. Nas discussões públicas que a pesquisa conseguiu ler, ninguém pede dashboard. As dores são manutenção, contradição e perda de entendimento do próprio conteúdo. Então a página que eu quero deveria responder uma pergunta só: o que eu preciso revisar?

Perfis pessoal e de trabalho

Esta seção também é intenção. Nada dela existe no kit hoje.

Lembra da dúvida de julho, um vault ou vários? Para o trabalho, a resposta que eu quero dar é outra wiki.

O plano é ter um perfil de trabalho como uma segunda instância, separada da pessoal. A governança da primeira versão seria só um aviso: usar apenas o provedor de IA aprovado pela empresa. Trava técnica, nenhuma.

Sei que aviso não impede ninguém de errar. É uma escolha para começar pequeno, e eu disse isso com todas as letras no brainstorm:

“eu nem sei se vai dar certo esse projeto e eu não quero que ele nasça como Big Bang”

Se vai funcionar, eu ainda não sei. Por isso mesmo a ideia é começar com aviso.

Por fim

Uma wiki mantida por LLM não serve para uma coisa só. No meu dia a dia ela guarda insight de uma linha, segura ideia até ela voltar, mantém o fio de projeto pessoal, separa o comprovado do provável numa pesquisa e lembra o que foi decidido numa reunião.

Nenhum desses usos exige o nível 04. Todos começam com uma fonte em raw/ e um agente que não tem autoridade para decidir o que é verdade. As convenções extras são da minha wiki, e dá para adotá-las quando a sua pedir.

Quando a tela e a busca semântica existirem de verdade, eu conto por aqui, com os números.

Até lá, o primeiro passo cabe numa tarde: clone o kit no GitHub, rode o instalar.sh e peça ao agente para ingerir uma fonte sua. Pode ser o README da última ferramenta que chamou a sua atenção.

Espero que este artigo tenha sido útil.

#segundo-cerebro #llm-wiki #conhecimento-pessoal #notas #llm #anvilore